Rumo verdadeiro ou rumo magnético?

 Por Plínio Fasolo.

   Não deixa de ser surpreendente a resistência para a adoção de novas tecnologias quando se observa certos ambientes considerados de bom nível tecnológico. Ainda que se perceba a presença de equipamentos modernos, o seu uso muitas vezes revela a persistência de métodos antiquados, fazendo com que o aproveitamento da nova tecnologia seja mínimo quando comparado com as plenas possibilidades dos aparelhos. Um exemplo disso pode ser presenciado em nossas universidades. Embora já dispondo de boas redes de transmissão de dados ligando computadores velozes, a maioria dos professores mantém seus métodos pedagógicos dos tempos em que datilografava matrizes a álcool para serem reproduzidas pelo mimeografo e preparava transparências para serem apresentadas com um retro projetor. Para esses, as novas tecnologias se restringiram na substituição da máquina de escrever pelo teclado do computador, da matriz a álcool pelo arquivo gerado pelo “Word” e das lâminas do retro projetor pelos slides do PowerPoint. Quando o principal instrumento de navegação era a bússola, a sua utilização necessitava ser precedida de uma série de cuidados, sem os quais a navegação poderia significar grandes riscos para o navegador. Normalmente o procedimento era iniciado observando-se sobre uma carta o rumo verdadeiro que deveria ser seguido para atingir um objetivo. Como a bússola é um sensor magnético cuja leitura é afetada por campos magnéticos do ambiente, o seu uso passa por algumas etapas prévias que tem como objetivo garantir a navegação na direção do rumo verdadeiro desejado. Duas correções em principio devem ser realizadas: 1ª - a declinação magnética, que corresponde à diferença entre norte verdadeiro (orientação do meridiano do local) e o norte magnético (orientação para onde aponta a agulha de uma bússola sem desvios). Os valores da declinação magnética são variáveis dependendo da região geográfica e da época. As cartas de navegação informam os valores para determinada época (normalmente para a época em que a carta foi editada) com linhas coloridas unindo pontos de igual declinação. Essas linhas são denominadas “isogônicas”. As cartas também informam o valor da correção anual que deve ser levada em conta multiplicando o valor indicado pelo número de anos que possui a carta;

2ª – o desvio da bússola, que corresponde às influências dos materiais ferrosos e dos campos magnéticos produzidos por correntes elétricas que existem no veículo onde a bússola foi instalada. Todo o veículo que possui uma bússola instalada deve possuir também um gráfico que expressa a curva de desvios, construída empiricamente e especialmente para a instalação daquele instrumento no local escolhido. Portanto, para transformar em rumo verdadeiro, ou seja, em rumo que o navegador deseja realmente seguir, a indicação da bússola deverá ser corrigida desses dois valores: declinação magnética e desvio da bússola. Por exemplo: o navegador traçou sobre a carta o rumo que ele deseja seguir e verificou ser 134°. Verifica que, na região, a isogônica mais próxima indica uma declinação magnética de 12°W e que a data da edição da carta é 1977. A carta também informa que a correção anual das isogônicas é de 0°08’32”. Portanto, a declinação magnética a ser considerada será 12° + 8,5’ x 30 anos =  16°W. Além disso, a curva de desvios disponível mostra que, para a orientação dos 130°, a bússola necessita de uma correção de 5° E . Assim ficará o cálculo do rumo magnético: 134° + 16° - 5° = 145°. Surgiu o GPS. Um instrumento que revolucionou a navegação. Ele não tem sensor magnético. É um localizador preciso. As indicações de rumo que ele fornece são resultantes das mudanças de posição. Portanto, ele necessita estar se movendo para indicar o rumo do seu deslocamento. Ele não indica a orientação da proa do veículo. Ele não é uma bússola. A bússola é insubstituível simplesmente porque o que ela faz o GPS não faz. Da mesma forma, o GPS faz o que a bússola não faz, ou seja, informar a posição. A popularização do sistema GPS e a pequena dimensão do chip receptor fizeram com que as fábricas produzissem aparelhos com acessórios que fornecem além da posição muitas outras informações, como a hora precisa nos diferentes fusos, declinação magnética atualizada para as diferentes regiões, pressão atmosférica, cartas de fundo, simuladores, etc. Surpreendentemente, essas facilidades têm servido para confundir os experientes usuários de metodologias antigas, que dominavam o meio náutico, nos tempos em que o sistema GPS não existia. Os acostumados com o trabalho da navegação por bússola, desconfiando da nova tecnologia, aderiram ao uso do GPS configurado para fornecer o rumo magnético. Isto é, desfazem o que o GPS tem de bom: a informação do rumo do deslocamento verdadeiro, direto e imediatamente, sem a necessidade das correções que eram feitas para a navegação com o uso da bússola. Mais estranha ainda é a justificativa adotada para tal procedimento: “se o GPS falhar teremos o rumo garantido pela bússola”. Não há lógica nisso. Se o GPS não funcionar, não haverá informação alguma proveniente dele e então será necessário voltar ao velho método de fazer com que a navegação seja realizada para um rumo, enquanto mantém-se a bússola indicando outro rumo diferente, torcendo para que os cálculos e leituras, não só da carta de navegação, mas das correções da declinação magnética e da curva de desvios tenham sido bem feitas. Exemplo de uma curva de desvio de bússola:

O argumento de que “se o GPS fornecer o rumo magnético teremos a coincidência de leituras” não é válido. A correção do desvio da bússola não pode ser fornecida pelo GPS. Para os velejadores, a bússola é indispensável para a manutenção de uma proa definida. A sua sensibilidade e velocidade de resposta para as rotações do eixo da embarcação em torno da vertical se constitui num auxílio importante para o timoneiro. O GPS não pode exercer tal função. No entanto, para o navegador da embarcação que está interessado em fazer com que ela atinja determinada posição verdadeira, o GPS cumpre toda a sua função com incrível “competência” e, para ele, pouco interessa a proa momentânea indicada pela bússola. Para um navegador iniciante, que pouco ou nada conhece sobre declinação magnética e curvas de desvio da bússola, o GPS configurado para fornecer rumo magnético pode até mesmo se constituir em algo perigoso, já que potencialmente ele passa a adquirir um fator de erro que não haveria na configuração com rumo verdadeiro.