Aterre seu barco

(Por Plínio Fasolo)
 


    O título pode sugerir que você jogue seu barco contra a praia, mas não é isso que desejo que você faça. Deus nos livre de uma coisa dessas! Ao contrário , desejo aconselhar você a navegar com segurança. Navegar longe da costa é um procedimento tão importante para os que amam a segurança quanto ter os metais de convés, principalmente mastros e estaiamentos muito bem aterrados através de grossos fios de cobre, todos interligados e conectados à quilha metálica da embarcação. Também você não deve esquecer que pelo menos uma parte da quilha , preferentemente a parte mais inferior, deve ser "descascada", deixando o metal em contato direto com a água. Você pode ainda fazer como eu: depois de tudo interligado à quilha ainda parafusei uma chapa de cobre no casco, externamente, junto à quilha. No grosso parafuso solidário à chapa, passante pelo casco, também foram ligados todos os cabos de cobre do sistema que foi conectado à quilha. Seria exagero? ... Não sei! ... O que sei é que sobre um barco bem aterrado não cai raio.

    Tenho conversado com muitos navegadores experientes e, via de regra, eles apontam o raio como o componente mais temível de uma tempestade. Parece portanto que munir a embarcação com um sistema confiável à prova de raios compensará os gastos realizados no empreendimento. Desde que meu sistema (do meu barco) mostrou eficiência na dissipação das cargas elétricas induzidas pelas nuvens de tempestade sobre o mar, nunca mais fiquei apreensivo pelos raios. Não se tem notícia de alguma embarcação que tendo bom aterramento tenha sido atingida por algum raio. No entanto, sabe-se que todos os que foram atingidos por faíscas atmosféricas não possuíam aterramento ou seus sistemas eram precários e defeituosos.

    Como funciona o mecanismo de proteção contra raios? Na realidade ele é muito simples, lógico e de fácil entendimento, especialmente por aqueles que não foram "contaminados" pelas frase ridículas que são mostradas pelos livros escolares a respeito dos pára-raios e do "poder das pontas". Inicialmente é necessário esclarecer que o pára-raios não deve "atrair" os raios. Se assim fosse, ninguém desejaria instalar pára-raios em seus prédios.

    Mas de onde vem a idéia comum de que um pára-raios atrai os raios?

    Por incrível que pareça vem dos livros de Física para as escolas de ensino básico.

    Um dos livros de Física mais utilizados pelos professores e alunos que freqüentam as escolas de ensino médio apresenta o assunto assim:

    Definição de pára-raios e sua função apresentada no livro "Curso de Física 3", dos autores Beatriz Alvarenga e Antônio Máximo, 5ª edição, 2000.
Na página 73 , encontramos:

"... Quando uma nuvem eletrizada passa sobre o local onde os pára-raios foram colocados, o campo elétrico estabelecido entre a nuvem e a Terra torna-se muito intenso nas proximidades de suas pontas. Então, o ar em torno das pontas ioniza-se, tornando-se condutor, fazendo com que a descarga elétrica se processe através das pontas. Em outras palavras, há maior probabilidade do raio cair no pára-raios do que em outro local da vizinhança. Naturalmente, como o pára-raios está ligado ao solo a carga elétrica que ele recebe da nuvem é transferida para a Terra sem causar danos."

    Em outro texto examinado, "texto dos "Bonjornos", encontramos também explicações sobre o funcionamento dos pára-raios. Novamente a mesma incoerência na interpretação do fenômeno:

"...os aviões são providos de pontas metálicas nas suas asas, através das quais eles descarregam as cargas elétricas que se formam pelo atrito dos metais com o ar, dessa forma não se tornam alvo dos raios durante as tempestades." Em seguida, há o seguinte parágrafo sobre pára-raios:


Texto retirado do livro "Os Fundamentos da Física" dos "Bonjornos".

    Nota-se uma incoerência entre a descrição acima reproduzida e a que descreve o poder das pontas:

"...que descarregam o excesso de eletricidade do solo (ou do avião) para o ar, fazendo com que a intensidade do campo entre a nuvem e o solo (avião) diminua, e portanto diminuindo a probabilidade de haver descarga elétrica entre a Terra (avião) e a nuvem"

    Com as afirmações destacadas acima, com respeito à probabilidade de pára-raios atraírem raios, parece que os autores gostariam de chamar os pára-raios de apara-raios.

    Um bom pára-raios é justamente aquele sobre o qual jamais um raio irá cair.
 


(a)
(a) – Uma atividade de simples realização, que demonstra a verdadeira função de um pára-raios, consiste em colocar um gerador de Van de Graff produzindo faíscas entre ele e uma esfera metálica.

 


( b )
(b) – No lado oposto à faisca, cola-se na esfera um percevejo com a ponta para fora simulando o pára-raios. Enquanto o percevejo está afastado da região da faísca, esta se mantém visível.

(c)
(c) – Girando a esfera menor, quando o percevejo se aproxima da região que está faiscando, a faísca desaparece.

Continuando com a rotação da esfera menor, quando o "pára-raios" de percevejo se afasta da região de menor proximidade entre as esferas, as faíscas reiniciam.
 

    Na realidade o mecanismos dos raios sobre as águas e sobre os barcos funciona mais ou menos da seguinte forma:

    Em primeiro lugar, não existem nuvens neutras ou descarregadas. Todas as nuvens são formadas por gotículas d'água em suspensão no ar constituindo uma mistura tipo "colóide" de líquido em gás. Os experimentos demonstram que mais de 90% das nuvens possuem carga positiva, especialmente em sua parte mais inferior. Essas nuvens induzem uma "mancha" (zona) de cargas negativas sobre as águas (ou sobre o solo) - Figura 1-

    A presença de um barco, com mastro aterrado, no interior da "mancha" corresponde a um pára-raios. Ele drena (escoa) para a atmosfera as cargas da "mancha", "desmanchando" a mancha de cargas negativas em sua proximidade, - Figura 2 - fazendo com que a diferença de potencial entre o barco (e sua região próxima) e a nuvem diminua, impedindo que ocorra descargas violentas sob a forma de faíscas (raios).
 


Figura : 1

Figura : 2

        Portanto, vamos lá... aterre o seu barco! Ou então... não enfrente as tempestades, pode ser perigoso.