Veleiros modernos

(Plínio Fasolo)

Houve tempos em que as embarcações de pequeno porte também eram utilizadas para longas travessias oceânicas, geralmente a vela. Esses veleiros, além de fortes, deveriam possuir um desempenho equilibrado que proporcionasse aos navegantes, além de velocidade, conforto no deslocamento. Ocorre que essas duas qualidades não crescem juntas. Parece que a soma: “velocidade (performance) + conforto” é constante. Ou seja, quando se privilegia a velocidade, o conforto “vai pras cucuias”.

O “conforto”, presente nessa equação, não significa boas acomodações e utilidades dos espaços existentes, mas um deslocamento confortável, sem vibrações, sacudidas e balanços. Mais ou menos a diferença entre estar em um berço ou em uma rede nordestina e estar no interior de uma máquina de lavar roupa... Ligada.

Durante o mês de outubro passado tive a oportunidade de experimentar dois veleiros modernos em viagens longas pela mar.

A primeira, em um 45 pés, capitaneado por um experiente navegador, foi de Porto Alegre até Agra dos Reis.

A segunda, em um 36 pés, com o mesmo capitão, foi de Fernando de Noronha até Ilha Bela.

Nessas viagens pude observar que a opção por mais velocidade é uma característica dos projetos de maior sucesso no mercado.  São barcos com excesso de flutuação e por isso quase não mergulham no mar, fazendo a trajetória do barco reproduzir as imperfeições da superfície da água. Isso exige da tripulação, além de boas condições físicas, muitos cuidados na vida a bordo. Cada movimento deve ser estudado previamente para não se desequilibrar, sofrer quedas, batidas e não quebrar coisas.

Assim, apesar de todo um estilo lindo, aparentemente ergométrico, até mesmo luxuoso, a navegação longa com esses barcos, por vários dias, acaba sendo desconfortável.

Tudo indica que são os proprietários dessas embarcações os responsáveis por esse estilo de demanda. São eles que traçam o perfil de seus sonhos de consumo.

Geralmente são pessoas sem tempo que farão uso de seus barcos em regatas festivas ou em passeios curtos, de preferência em águas abrigadas, não ultrapassando um fim de semana, já que os seus compromissos exigem a sua presença na próxima segunda-feira.

Caso necessitem o translado de seus barcos para portos distantes contratam um skipper.

Foi como auxiliar de skipper que tive oportunidade de experimentar esses barcos.

São maravilhosos em águas tranqüilas e ventos calmos.

Outro indicador que apóia a minha leitura sobre esse fenômeno é o fato de não ter encontrado em nenhum desses barcos uma torneira de água do mar em suas cozinhas.

Lavar todas as panelas só com água potável é um luxo de quem vai permanecer pouco tempo embarcado.

Se eu gostaria de possuir um desses veleiros? Claro que sim. E faria o mesmo. Caso necessitasse viajar... Contrataria um skipper.