Pedagogia Navegadora
(Por Plínio Fasolo) 
 

     “Navegação é a arte do deslocamento fora de estradas”. Possivelmente essa definição não será encontrada em livros. Ela foi construída por mim durante a minha vida. Até nem sei bem identificar o momento ou a situação em que ela surgiu dessa forma, porém, o conceito que ela expressa foi sendo construído pouco a pouco, tijolo a tijolo, como um prédio. Na verdade todas as definições surgem assim. Inicialmente são apenas construções no mundo das idéias que, com o passar do tempo, vão se distinguindo das demais até se tornarem identificáveis e inconfundíveis. Finalmente, diante da necessidade de expressá-las, cria-se a definição, ou seja, a expressão do conceito, da idéia.
     Comecei a navegar quando ainda engatinhava pela casa de meus pais. As salas eram amplas com móveis espalhados. Uma poltrona aqui, uma mesa ali... Assim eu ia escolhendo o meu caminho em busca de um brinquedo.
     Depois foi quando atravessei campos e matos em busca de passarinhos para abatê-los com as pedras lançadas de minha funda. Naquele tempo falava mais alto a tradição italiana; bem mais do que os discursos dos raros “ecologistas”, pelo menos naquela região. Lamento a inconsciência de então, mas não consigo me envergonhar das atrocidades praticadas. Lembro de momentos de angústia por não encontrar por vezes o caminho da volta . Embora sem muito raciocínio, sinto ter me utilizado do Sol para conseguir achar a orientação de retorno.
     Mais um tempo passou até eu me encontrar dentro de um avião. O primeiro vôo solitário é inesquecível para qualquer piloto. O instrutor desceu do pequeno avião sem que o motor fosse desligado. “Felicidades, guri ... não te afastas muito do campo”. De repente o “Piper - J3” parecia ter encompridado.  Decolei, sempre estranhando o lugar do instrutor vazio à minha frente. A  sensação de liberdade foi fantástica. Tornei-me um pássaro. Mais alguns minutos e a sensação foi modificando de prazerosa para preocupante. Lembro que passei sobre a cidade sem tirar os olhos do campo de onde eu havia decolado.  Era o temor de não saber voltar. Mais alguns vôos e, aos poucos, fui adquirindo confiança na técnica de me utilizar da bússola. Passei então a navegar para locais mais distantes.
     Certo dia um amigo convidou-me para ser seu navegador  em uma prova de rali. No princípio não entendi qual seria a função de um navegador em um automóvel que se desloca sobre uma estrada. Parecia que era só o piloto seguir em frente que o destino estaria garantido. Na verdade não é bem assim. O plano recebido na partida não era tão claro. Ele continha indicações  que deveriam ser interpretadas para se identificar quando e qual entrada, desvio ou estrada secundária deveria ser  seguida entre as muitas existentes ao longo da rodovia principal. Daí a necessidade do navegador. O conceito de navegação foi se ampliando e assumindo um sentido cada vez mais claro. Então surgiram os barcos.
     As primeiras vezes que saí  com um veleiro me mantive mais preocupado com o velejar do que com o navegar. Mas em seguida quando entrei na grande “Lagoa dos Patos” e perdi a visão das referências na costa, a navegação passou a ser necessária. A minha experiência com a aviação permitiu que, aplicando os mesmos conhecimentos, não enfrentasse maiores dificuldades no navegar. A utilização de cartas e bússola não era mais novidade para mim. Mesmo assim, o alívio que sentia ao avistar a marca que representava o final de cada trecho correspondia à sensação de um prêmio e merecia ser comemorado como uma grande vitória.
     Quando chegou a Internet, e com ela a navegação pelo  ciberespaço, foi fácil compreender o significado dessa navegação. O que ela possui em comum às outras formas de navegar?  - O fato de oferecer ao internauta, a todo o momento, a liberdade para escolher a próxima página. Uma infinidade de opções para o próximo passo. Esta é a essência da navegação. Diferentemente dos que estão sobre uma estrada ou um trilho, a quem só é permitido seguir em frente ou retornar, os navegadores gozam das vantagens de sempre possuírem uma infinidade de opções de diferentes direções  para o seu deslocar.
     Os professores que seguem um plano de aula, que estão presos a um programa de conteúdos e a currículos predeterminados, são como trens sobre  linhas férreas.  Não podem sair dos trilhos. Essa é a principal característica do sistema de ensino tradicional que torna o professor um comunicador dos conhecimentos registrados nos livros e relacionados nos programas; um agente do ensino reprodutor. Esse sistema pode ser sinteticamente assim apresentado:
Insumo:  Conhecimentos ( dos livros ou da memória dos professores).
Processo: Comunicação ( informação através de diferentes recursos).
Produto: Capacidade de reprodução dos conhecimentos.
Avaliação: Comparação do produto com o insumo.
     Os conhecimentos que correspondem aos insumos do sistema tradicional geralmente são imaginados como resultantes das pesquisas feitas pelos pesquisadores e portando nada tendo a ver com o aprendiz. Ou seja, aquele que aprende é simplesmente um coletor ou copiador do conhecimento produzido por outros.
     A comunicação, que é o processo utilizado pelo professor tradicional, muitas vezes chega disfarçada de experimento. Para tornar o seu comunicado mais verossímil  a informação é complementada  com a "demonstração prática" que , via de regra, é denominada erroneamente de experiência.
     Saber reproduzir os conteúdos dos livros ou as informações dos professores constitui-se no principal produto a ser testado pelos instrumentos de avaliação. Quanto mais semelhante for o "produto"  do "insumo"  maior será  o sucesso revelado pela avaliação.
      O tipo de trabalho pedagógico que venho testando junto às disciplinas de “Metodologia do Ensino de Física” subverte o sistema tradicional. Basicamente consideramos que o conhecimento deva ser o produto do sistema e, o insumo, aquilo que é desconhecido. Nesse novo sistema de ensino o processo que transforma o insumo (o desconhecido) em produto (conhecimento) é a investigação. Portanto é o mesmo procedimento adotado pelos cientistas.
     Ensinar através da pesquisa tem sido um desafio para muitos professores mas poucos tem conseguido manter  essa sistemática trabalhando em escolas tradicionais. Aprender Ciência trabalhando como o cientista é semelhante ao nadador que aprende a nadar entrando na água , batendo os pés e dando braçadas. Ninguém aprende a nadar apenas ouvindo palestras sobre natação.
 “A marca educativa da pesquisa leva facilmente à exigência de compreendê-la como atividade cotidiana, tal qual a educação é processo cotidiano. ... Pesquisa como atitude cotidiana significa andar sempre de olhos abertos, vendo o mundo criticamente e reconstruindo-o  pelo questionamento permanente.”  Demo, Pedro. ABC - Papirus Ed. 1995.
     Portanto, o objeto a ser pesquisado por aquele que deseja aprender verdadeiramente é o seu desconhecido próximo, o mundo que o cerca ao alcance de seus meios de percepção.
 Ensinar pela pesquisa significa libertar os estudantes dos problemas encomendados, dos programas de conteúdos e das provas que testam a memorização das informações repassadas pelo professor. É o aluno que busca identificar o seu desconhecido e será ele o planejador e executor da investigação que transformará o desconhecido em conhecimento.
  Como escreveu Frota Pessoa, - Biólogo e Professor da USP- “É necessário reinventar e reintroduzir o modo genuíno de aprender. Lamentavelmente ainda não foi possível transformar o ensino tradicional em um processo gerador de aprendizagem.” ... “para tanto seria necessário que as faculdades funcionassem como Centros de Ciências onde os estudantes se envolvessem em projetos de investigação, proscrevendo fanaticamente o tripé que sustenta o tradicionalismo: chamada, currículo prefixado e provas.”
     Enquanto o sistema tradicional  se realiza com retroação negativa , isto é, o produto retroage sobre o insumo diminuindo-o, (ninguém consegue  reproduzir totalmente os conteúdos do programa), esse novo sistema  funciona com retroação positiva, ou seja, o produto, que é o conhecimento, aumenta o insumo, que é o desconhecido. Quanto mais se conhece de um universo infinito mais se ampliam as fronteiras com o desconhecido. É justamente nas fronteiras entre o conhecido e o desconhecido que se encontra a possibilidade de se perceber aquilo que desconhecemos. Representando a pequena parcela do nosso conhecimento por um círculo, a circunferência do seu contorno representa a fronteira. Toda a área externa ao círculo seria o universo desconhecido. Enquanto o círculo for pequeno, pequena também será a fronteira com a parte externa. Por isso, quem pouco conhece geralmente pensa saber quase tudo. Na medida em que o círculo se amplia, a sua circunferência também aumenta, ampliando as possibilidades de se enxergar o muito que desconhecemos.
     “A maioria das pessoas tem a impressão de que não passo de um aventureiro, pulando de uma jangada para outra, colecionando brigas com acadêmicos de todo o planeta. Na verdade, considero-me um ser humano livre, cuja preocupação maior é resolver problemas chegando ao fundo das questões, e com isso abrindo caminhos para novas dúvidas. Quanto mais faço, mais observo, tanto mais percebo que posso solapar teorias que se acham arraigadas entre os círculos de intelectuais que se crêem autoridades e fingem deter o monopólio do conhecimento.” Thor Heyerdahl : Na trilha de Adão.”
      Esse sistema “subversivo” pode ser assim esquematizado:
Insumo: aquilo que desconhecemos.
Processo: investigação.
Produto: conhecimento.
Avaliação: ampliação da percepção do universo desconhecido.
     Essa revolução vem sendo realizada por mim nas aulas de “Metodologia do Ensino de Física.." no curso de Licenciatura em Física   oferecido pela Faculdade de Física da PUCRS.
     Um resumo de como isso vem sendo feito:
     Após esclarecer  e exemplificar  para os alunos como é possível realizar  investigações em conjunto durante o tempo normal de uma aula, eles são convidados a assumirem as atividades de preparação de outras investigações semelhantes cujos temas ou problemas devem ser definidos por eles mesmos. Saliento que o produto da atividade investigatória deve ser um conhecimento que não existia antes da sua realização e que, portanto, não suportará a indagação se o resultado é certo ou errado. Outros componentes da atividade também são importantes : testar a eficiência dos instrumentos utilizados na obtenção de dados  repetindo muitas vezes as coletas (ter método); manipular uma variável de cada vez; registrar todo o andamento de forma organizada (preenchimento de tabelas); fazer todo o grupo participar da análise dos resultados e da elaboração das conclusões. Por último  não somente o resultado mas toda a atividade é passível de uma análise crítica também realizada pelo grupo, especialmente sobre a confiabilidade dos resultados e sobre os valores do conhecimento obtido.
     No início de cada encontro cada membro do grupo  (aluno e professor) apresenta um pequeno relatório, escrito fora de classe, sobre o encontro anterior.
     De um conjunto de livros, o grupo escolhe pelo menos um para ser lido fora de classe. Após todos terem completado a leitura  alguns seminários são realizados e seus assuntos discutidos pelo grupo.
     Como pode-se perceber não há um programa determinado ou uma relação de conteúdos predefinidos. No entanto os assuntos mais importantes da Física são trabalhados desta forma e, via de regra, fixados como conceitos ou “construtos” de cada um.  Como em qualquer navegação há um destino, um objetivo a ser alcançado. Não importa se for o mesmo para o grupo ou distinto para cada um. As correções de rota obviamente farão parte da trajetória de cada um e elas poderão ser realizadas tanto pelos recursos do próprio navegante (como se ele fizesse uso da sua bússola ou de seu GPS ) como dos recursos dos demais participantes do grupo (como dos centros de controle dos aeroportos ou das outras aeronaves em diferentes rotas).
     Os depoimentos que tenho coletado ao longo desta experiência são responsáveis por me fazer não apenas continuar a desenvolver a estratégia navegadora como também  encorajar outros professores a fazerem o mesmo.

(Plínio Fasolo - 2000)