Opinião
(Por Plínio Fasolo)


É preciso ensinar a fazer Ciência

    A educação científica brasileira segue por caminhos inconvenientes. Ao contrário de promover a independência do nosso povo, intensifica a nossa condição de dependentes e oprimidos. Do 1o ao 3o Grau, nosso estudante e incentivado a desenvolver uma postura de receptáculo do conhecimento oficial, em vez de agente transformador a sua própria condição.
    A qualificação de "humanista" muitas vezes concedida à nossa educação é falsa e mal-intencionada porque significa apenas uma educação barata, de baixo custo, pobre e burra, mas de alto custo social. Como decorrência, os investimentos para a formação científica sempre foram mínimos. Nenhum governo brasileiro considerou a educação realmente prioritária.
    A pedagogia brasileira é paternalista e castradora em termos de metodologias, pobre e reprodutora em termos e conteúdos, especialmente no ensino das Ciências, no qual se supõe que sua principal função é transmitir conhecimentos, como se o conhecimento não fosse obra do aprendiz mas do sistema.
    Um ensino de Ciências que pretende comprometer-se com uma educação libertadora deve alicerçar-se em princípios que tratam o conhecimento como conquista do educando e não como uma simples herança dos antepassados.
    A educação científica, quando iniciada nas primeiras séries, num verdadeiro currículo por atividades, representa a face menos deturpada do que seja "ensinar Ciências".
    Aprender Ciências é mais adquirir uma forma de agir para obter conhecimentos desejados do que uma forma de raciocinar para entender conhecimentos consagrados.
    Assim como ninguém desenvolve sua musculatura com a ginástica dos outros, ninguém adquire educação científica ouvindo alguém falar sobre as conquistas da Ciência.
    O ensino de Ciências perde muito para as outras áreas. Os estudantes aprendem a ler e escrever nas aulas de Português, aprendem a calcular nas aulas de Matemática e nas aulas de Ciências aprendem o quê? Parece que apenas aprendem a admirar descobertas e, se possível, a reproduzi-las.

    No entanto, o exercício do fazer científico deve ser parte da educação integral do indivíduo. Neste sentido o professor de Ciências deve estar consciente do seu papel e do seu compromisso. É fundamentalmente uma decisão política desastrosa preferir ensinar Ciências contando as conquistas da Ciência no lugar de oportunizar ao educando desafios para que ele, na busca do conhecimento, faça Ciência.
    Em uma aula, onde o importante era utilizar a atividade científica para estabelecer relações com a sociedade ou com o comportamento político-social do homem, estudantes verificavam como a nossa sociedade consome detergentes em excesso, desnecessariamente, causando danos ao nosso ambiente e aumentando a nossa dívida externa, quando uma aluna disse: "Sinto-me mais ignorante do que um índio que não perde tempo diante de uma TV assistindo a comerciais que induzem a gastar mais sabão".

    Sempre que se oportunizar esse tipo de relação entre Ciências e sociedade cabe ao professor convidar os estudantes para discutirem tais aspectos. Seria conveniente que toda a atividade científica proposta como "aula de Ciências" não ficasse restrita ao puro conhecimento científico, mas mostrasse as qualificações desse conhecimento e as injunções de domínio a ele ligadas.


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