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            O “gnomon” de Saint-Sulpice

                                                                       Plínio Fasolo 


 


 

A casa da minha sobrinha em Paris, onde estou hospedado, fica a meia distancia entre o museu do Louvre e a igreja Saint-Sulpice.“Clique sobre qualquer parte deste paragrafo”. Menos de dez minutos de caminhada me separa de qualquer um desses locais que serviram de palco para os dois únicos crimes imaginados e contados por Dan Brown em seu best-seller “O Código Da Vinci”
 

            Saint-Sulpice, construída no século XII, impressiona por suas dimensões. Embora suntuosa na arquitetura, nas pinturas e nas esculturas, possui um mobiliário característico de uma pobreza franciscana. Poucos bancos. O que se vê são grupos de cadeiras de madeira, com assento de palha, emendadas com uma travessa.

            Eu e minha mulher voltávamos do altar principal caminhando lentamente pelo corredor norte quando ela me chamou: “olha aquele obelisco lá no canto ... parece relacionado com astronomia.” Fui olhar.  

 

A inscrição em latim no pé   do obelisco permitia entender que se tratava mesmo de um “gnomon”. Tentei traduzir o texto, mas meu conhecimento do latim aprendido no ginásio, há  mais de cinqüenta anos, apenas permitiu-me entender que se tratava de um “gnomon” mandado construir pela igreja para determinar a data da páscoa através  da passagem meridiana do Sol no equinócio de primavera. Já era o bastante para me interessar pelos detalhes.

 

            Também não passaram despercebidas algumas partes apagadas do texto, como se houvessem sido censuradas. Quando se trata de ciência e religião, algo desse tipo sempre produz pensamentos intrigantes. Talvez por isso a imaginação de Dan Brown foi despertada com tanta intensidade. Essa igreja exerce um fascínio especial. Sem duvida, seus estranhos sinais, aparentemente inexplicáveis para os leigos, acabam acirrando a imaginação de quem se vale dela para fazer sucesso como , por exemplo, os escritores de ficção. 

            Após uma observação mais atenta, pude perceber que havia uma linha dourada central que se estendia ao longo do “gnomom” e  continuava pelo chão atravessando a igreja de forma um pouco obliqua.

 

            Estava mesmo sem entender que serventia teria um “gnomon” no interior de uma igreja, onde supostamente não bate Sol, uma vez que a função do “gnomon” é permitir um estudo do movimento do Sol em função da sombra projetada. Então continuei seguindo a linha dourada pelo chão da igreja. 

 

            Quase em frente ao altar principal surgiu um disco dourado. Mais adiante, depois de atravessar uma mureta que protegia a mudança de nível do chão, nova marca surgiu sobre a linha. A linha continuou até desaparecer na escuridão do fundo de uma capela lateral. A igreja de Saint-Sulpice possui uma  capela lateral, com altar e tudo, para cada uma das estações da via sacra de Jesus Cristo.

Então, olhei para cima, na direção da linha, e pude observar que um dos vidros do enorme vitral havia sido substituído por uma placa retangular escura. “Eureka”!!!! Finalmente eu havia compreendido o funcionamento daquele “gnomon”. 

 

            Percebi também que o “ganomon” verdadeiro não é o obelisco e sim o retângulo na janela. O obelisco é apenas um monumento que serve de antepara para dar continuidade à linha dourada, possuindo a marca para quando a sombra do retângulo da janela atingir o seu afastamento máximo  no solstício de inverno. Embora a igreja seja imensa , ainda foi pequena para conter a extensão da linha que seria necessária se ela se mantivesse no plano do chão.

            Estava exultante com minha descoberta. Quando voltei para junto ao obelisco, percebi na parede lateral, um pouco distante, um pequeno quadro com folhas fixadas, como se fossem boletins para os fieis. Minha “descoberta” estava toda explicada nessas folhas. Confesso que fiquei um pouco decepcionado. Na realidade havia sido apenas uma redescoberta.

 

Resumindo. A linha dourada marca o meridiano geográfico (linha imaginaria que passa pelo zênite de um local e pelos pólos da Terra). Ela se estende na direção Norte-Sul. O meio dia verdadeiro, ou meio dia solar do local, corresponde ao momento em que o Sol cruza o meridiano culminando ou atingindo sua maior altura no seu transito diurno.

            No desenho, o ponto A marcado sobre o obelisco será atingido pela sombra do retângulo da janela no momento da culminação solar do dia 21 de dezembro, definindo o solstício de inverno no hemisfério norte.

            A sombra atinge o ponto B, que na fotografia aparece como um disco dourado, nos dias de equinócio. Em 21 de marco, equinócio de primavera, vinda do obelisco para a janela e em 23 de setembro, equinócio de outono, movendo-se em sentido contrario.

            A data da páscoa  é definida como o domingo que segue a primeira lua cheia após o equinócio de primavera no hemisfério norte.

            O meridiano de Saint-Sulpice já serviu como origem da longitude. Foi somente em 1884, na Conferencia Internacional do Meridiano em Washington, que vinte e seis paises concordaram em usar o meridiano de Greenwich como o marco zero da longitude. Apenas a França e o Brasil não o reconheceram e continuaram utilizando o meridiano de Saint-Sulpice até 1911.

 

 

 

           

            Os transeuntes que passarem pela estreita rua lateral (rue Palatine), ao olharem para cima, poderão observar o histórico “gnomon”. Possivelmente a maioria pensara tratar-se apenas de um remendo mal feito no vitral da igreja.

 

Paris, 10 de agosto de 2007.




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