Discurso de Paraninfo III (10 de janeiro de 2004)
    Plínio Fasolo
 
    Estamos em uma reunião de vencedores. Sou muito grato por ter sido convidado para participar desta festa. Não me imagino indiferente ao sucesso, mesmo que não seja o meu. Então, quando ele é de amigos, fico ainda mais emocionado.
 
    Não sou apenas um ex-professor desse grupo. Não se vivem tantas experiências com simples alunos. Pequena prova menciono para exemplificar: - os quatros já velejaram comigo e no meu barco só embarca amigo.

    Daniel, os nossos papos sobre jaz e músicos antigos jamais serão esquecidos e tenho a impressão que a passagem pelo laboratório de Astronomia deixou marca importante na sua vida.

    Cíntia, não sei por quantos anos irei ainda aplicar os testes de mecânica newtoniana tão caprichosamente reconstruídos por você. Espero que seja por  muitos e sempre irei lembrar a quem devo aquele belo trabalho.

    Alexandre, considero o seu interesse pela astronomia uma homenagem para a minha pequena participação na sua vida acadêmica, mas o  aperto por que passamos durante aquele  ataque de abelhas foi importante para apertar também os nossos laços de amizade.

    Cláudio, muito do que hoje sei sobre computador, Internet, homepage eu devo a você. Também me orgulho por você ter escolhido escrever sobre Astronomia para seu trabalho de conclusão, embora tendo já iniciada uma bem sucedida carreira na Física médica.

    Não sei se tardiamente, mas tenho procurado fazer da universidade um lugar de encontros. Dizer assim: lugar de encontros pode soar estranho, mas sentir-se perdido é uma das piores sensações que alguém pode experimentar. Talvez por isso me dediquei tanto à arte da navegação e me mantive sempre atualizado no uso de instrumentos de localização.

    Já me senti perdido de muitas maneiras: em terra, no mar e no ar. Também já me senti perdido numa sala de aula. Especialmente durante o meu curso superior. ... Muitas vezes não tinha nem idéia sobre o que o professor estava falando. E nem por isso ele parava de falar. Falava como se todos ali estivessem entendendo. Ele fazia perguntas e, diante do silêncio que se seguia, ele mesmo dava as respostas. Parecia não se importar com a perplexidade dos alunos. Ao contrario, representava ser sua maior preocupação causar perplexidade. E ele conseguia. Então, para manter este estado de estupefação, rapidamente mudava de assunto dizendo: vamos ao próximo tópico do programa, caso contrário não teremos tempo para vencê-lo. Eu me perguntava: "por que ele deve vencer o programa? Será um inimigo que deve ser derrotado?".

    Claro que todos vocês sabem o que o professor pretendia dizer com vencer o programa... Logicamente não significava impor uma derrota, mas completá-lo. Ou seja, apresentá-lo até o fim, até o último tópico. Este era o seu compromisso de mestre. E eu e muitos outros colegas continuávamos perdidos.

    Que constrangimento! Como, diante de um professor que sabe tanto, que cumpre o programa com determinação e entusiasmo, podemos sentir-nos perdidos?  Então pensava: é preciso dissimular. Não podemos parecer tão ignorantes. Não podemos interromper seu discurso de mestre. Se não conseguimos acompanha-lo é por que não temos capacidade para isso. Escutei-o dizendo que temos falta de base... Vai ver que nossos estudos anteriores foram péssimos. Maus professores, escolas mal equipadas... Só poderiam dar nisso... E a nossa dissimulação parecia se extinguir com o péssimo resultado nas provas.

    Esta cena vem se repetindo já há muito tempo. Embora apontada como inadequada ao moderno modelo pedagógico do construtivismo, essa prática parece caracterizar o legítimo produto do modelo de ensino reprodutor, também chamado bancário por Paulo Freire, e não somente pela conhecida compra de créditos, mas, sobre tudo, pela forma impessoal de como o conhecimento é transferido, depositado e avaliado.

    Não podemos nos enganar. A prática revela sim a verdadeira teoria de quem a faz. Apenas o discurso pode ser outro.
Confúcio, em 500 AC,  disse que o maior inimigo do conhecimento não é a ignorância mas a presunção de conhecer. Logo o construtivismo já era conhecido naquela época e assim mesmo continua presente apenas no discurso de um grande número de professores.

    Existem muitas causas para essa persistente reprodução incestuosa, que enfraquece cada vez mais os seus filhos, mas certamente a estrutura acadêmica moderna é uma delas.

    O saudoso José Lutzenberger disse uma vez: "Já faz muito que a universidade deixou de cumprir sua função de ser um local de questionamentos, choque de idéias, discussões e derrubada de paradigmas para tornar-se um centro de geração de conformados".

    As estatísticas mostram que tem diminuído gradativamente o número de jovens interessados em ser professor e os  poucos que ingressam nesses cursos correspondem, via de regra, aos menos intrumentalizados pela escolaridade básica.

    Tempos atrás, principalmente no ensino básico, se observava a proliferação de ações emergenciais, programas tipo "tapa buraco", que além de ineficientes e  voltados  para os efeitos em lugar das causas, reduziam mais ainda  os já poucos  recursos que seriam destinados à educação regular. Hoje essa política já alcançou a educação superior. Provão, PROCIENCIA, .PROINFO...Parecem representar a pílula do dia seguinte.

    O círculo vicioso que se estabelece pelo enfraquecimento do sistema de formação do professor e sua conseqüente incapacidade de produzir uma educação básica de qualidade talvez seja uma das causas importantes do agravamento da distância entre as classes sociais já que a sociedade tem capacidade limitada para suportar sua auto educação.

    Não se interrompe tal círculo com programas de recuperação posteriores aos cursos de formação e nem, tampouco com cursos de pós graduação. Além do mais é crime  conceder diploma a professores reconhecidamente mal formados.

    Também não é solução revoltar-se contra o sistema já que ele é o modelo da racionalidade vigente. Fazer o que, então?  Tenho perseguido a resposta para essa indagação já faz tempo.

    A minha prática tem sido voltada  para a investigação de possíveis formas de rompimento com os alicerces dessa racionalidade indesejável. Os resultados já começam a aparecer e não apenas em depoimentos eventuais ou relatórios formais de avaliação, mas especialmente na inquietação demonstrada por alguns, na indignação manifestada por outros e na indisfarçável alegria mostrada pela maioria por adquirirem a ousadia de questionar definições de conceitos  presentes em obras escritas por professores consagrados.

    Por isso, colegas professores, convido-vos para iniciarmos a tentativa de ruptura de velhos paradigmas ligados à excessiva burocratização administrativa dos cursos, à departamentalização universitária e a absurda separação entre a teoria e a  prática. Vamos encontrar tempo para discutir as causas das nossas incapacidades, tempo para refletir criticamente sobre os paradigmas vigentes e principalmente sobre o nosso papel perante os indivíduos e a sociedade.

    Queridos formandos. Sou testemunha da real capacidade que vocês demonstraram para possuir o diploma que agora portam atestando suas competências em exercer o magistério. O que menos importa é saber todas as respostas das perguntas sobre física que chegarem a vocês. O importante é vocês formularem perguntas que nem vocês sabem responder.

    Se ao ingressar na universidade acreditavam que suas dúvidas seriam dissipadas ao longo do curso estavam revelando a natural ingenuidade dos calouros de todas as épocas.

    Se agora vocês percebem que possuem muito mais dúvidas do que no início e nem por isso se sentem desconfortáveis...Vocês amadureceram e felizmente a universidade cumpriu o seu melhor papel.
    Sejam felizes
 
 

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