Meus alunos,


    Recebo hoje a maior das honrarias que um professor pode receber e por isso a maior das emoções que um coração pode suportar . É uma ocasião de felicidade ímpar que parece ter tido origem no dia longínquo em que decidi ser professor. Ah! ... como seria enfadonho viver em um universo tão determinista!... Vocês bem me conhecendo sabem que eu não penso assim. Na verdade , se aqui estou, sentindo este sabor maravilhoso do inusitado, a ansiedade do desconhecido e o sobressalto da surpresa é porque fui escolhido pelo acaso. Como um elétron que por ocupar um certo lugar num instante casual, salta para uma órbita inferior, liberando o foton que irá iluminar uma treva distante.
    É a segunda vez que me encontro nesta situação e, no entanto, estou percebendo o quanto mudei. Após este momento certamente jamais seremos os mesmos.
    Embora cumpridor de planos e programas oficiais, pois nunca neguei valores positivos a esses componentes do sistema, adotei métodos pouco convencionais e estratégias navegadoras. Navegação é a arte de se deslocar fora de estradas, sem caminhos previamente traçados.
    Utilizei a crítica como instrumento de aperfeiçoamento e a liberdade como impulsora do processo criativo. Apostei em mim e especialmente em vocês. Ganhei. ...Ganhamos.
    Seria esta a ocasião de falar sobre os feitos dos grandes físicos e dos exemplos deixados por suas vidas dedicadas aos legados que lotam os compêndios de nossas bibliotecas. Porém, como poderíamos trair aquilo que aprendemos com "Pirsig" sobre os fantasmas de nossa época ?
    Também seria o momento de reafirmarmos as qualidades da verdadeira experiência, do exercício do método e da necessidade da crítica. Mas como esquecer "Rubem Alves" sobre os hábitos alimentares da Ciência ? _ "Não devemos enviar um cordeiro para entrevistar lobos".
    E quem não lembra do "Frota Pessoa" quando em sua crítica ao sistema afirma que na vida o aprender é produto da ação, isto é, faz-se para aprender. No entanto a escola subverte esse processo a ponto de incutir o “aprende-se para não fazer”.
    Por isso prefiro utilizar este momento para mais uma vez denunciar, não o sistema, mas a vida e a natureza animal do homem, que cria o sistema e que, entre tantas injustiças e irracionalidades, insiste em desprezar cada vez mais a missão do professor, classificando-o de portador de mente pouco sadia ou de personalidade extravagante, apenas por ter escolhido esta profissão.
    Também prefiro reafirmar o quanto a reformulação de conceitos, a construção de novos valores e a extrema dignidade com que sempre tratamos os assuntos que fazem parte do nosso cotidiano contribuiu para deixar para trás um caminho tão lindo como o da esteira de um veleiro, navegando por águas tranqüilas. Participamos juntos de projetos e experiências muito interessantes e por isso fomos nos conhecendo além dos limites de uma simples sala de aula. Fizemos "feira de ciências", "acampamento astronômico" e tomamos cerveja no Maza.
    A tranqüilidade de uma época politicamente correta, sem grandes movimentos populares, greves ou convulsões sociais, um estado democrático estabilizado, não permitiu conhecer-mo-nos durante um processo de tensão ou crise. Tivemos sorte.
    Como participante da vida universitária de outras épocas, mais agitadas, quero testemunhar que, embora também muito reveladora, a situação de crise política não faz falta para plasmar caráter ou proporcionar revelações mais profundas sobre a identidade das pessoas.
    Conhecemo-nos o suficiente para aproveitarmos o aprender uns com os outros. E aprendemos juntos que continuaremos nos formando para o resto de nossas vidas.
    Nesses últimos anos vocês foram os meus melhores professores e por isso sou muito grato e digo-lhes: "muito obrigado".


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