Discurso do Paraninfo (Plínio Fasolo) da turma de Licenciados em Física pela PUCRS em 08 de janeiro de 2000


Ilustres autoridades acadêmicas
Colegas homenageados
Familiares e amigos dos formandos
Prezados: Carlos Eduardo, Daniel, José Ângelo e Marcelo.


    Mais uma vez, o destino reservou-me esta honraria de paraninfar a formatura de jovens colegas que , como eu, escolheram ser professor de Física.
    Mais uma vez esta situação me anima, emociona, desafia e também me inspira a refletir sobre a nossa profissão.
    Cada um de nós tem seus motivos próprios , suas histórias, seus sonhos como antecedentes deste momento marcante e único em nossas vidas.
    Convido-vos para , nos próximos dias, .......mas olhem bem, somente nos próximos dias, ... deixarem de lado as ansiedades, as indignações e outros pensamentos negativos que, por certo, estiveram presentes nesses tempos de vida acadêmica e comemorarem com grande alegria esta maravilhosa conquista.
    Vamos tirar férias, vamos brincar, rir bastante e aliviar nossas tensões. Só não vamos esquecer o que aprendemos. E o que aprendemos? Que a aceleração é proporcional à força? ... que o movimento se conserva? Que a carga é indestrutível ? ou que o arco íris é resultado de muitos fenômenos óticos perfeitamente explicáveis? ... É ... pode ser que aprendemos coisas desse tipo, mas eu me refiro mais especialmente a não esquecer que todas essas coisas são descrições limitadas, isto é , só podem ser aceitas dentro de determinado contexto. E foi a minha experiência que me ensinou ser esse o conhecimento mais importante do professor de Física.
    Se estão lembrados, vocês serão testemunhas do meu empenho em torná-los sabedores da existência de tais limites.
    Empenho não é garantia para o sucesso de uma ação.... mas pode ajudar muito! O que também pode muito ajudar é a existência de método, a ação repetitiva, que exige disciplina , que via de regra torna-se enfadonha mas sem a qual não se consegue desenvolver novas habilidades.
    Certamente vocês estarão lembrando das leituras sistemáticas no início de cada aula do relatório da aula anterior.
    Que compromisso chato! E ainda por cima não se constituía em exigência minha , do professor, da autoridade, mas um compromisso estabelecido junto ao grupo. É o tipo do compromisso forte... difícil de ser rompido. É muito fácil contestar a autoridade, desafiá-la e até desobedece-la, mas romper compromissos estabelecidos entre iguais é doloroso. As poucas vezes que deixei de apresentar meu relatório constituíram-se nos momentos mais constrangedores da minha vida de professor. Sim, porque eu professor também fazia e apresentava relatórios. Isso pode ser estranho para os habituados a métodos autoritários, mas fazer exigências aos outros que não possam ser realizadas por quem exige é o principal caminho para desordem, para a ineficiência e para a injustiça.
    Fazer o mesmo e fazer melhor é ser professor.
    É comum, nos discursos dos mestres, a existência de citações de autores consagrados, transcritas de obras importantes, referendando argumentos e exemplificando pontos de vista pertinentes ao contexto que está sendo vivido.
Não vou fugir à regra.
    A minha homenagem a esses quatro jovens que me escolheram como paraninfo nessa solenidade será a citação de alguns excertos de seus relatórios originados da nossa prática comum nos encontros sistemáticos da nossa convivência acadêmica.
    Do Carlos Eduardo: ... Peço que levante!!!
    “ após a experiência discutimos os textos deixados pelo professor. Eles fazem uma crítica à sociedade, aos pais e à escola que tentam tirar a infância das crianças, tornando-as seres produtivos. Em vários trechos salienta que as vezes a maior prova de inteligência está na recusa em aprender.”
    “Existem graves erros de conceitos nos livros didáticos. O Ministério da Educação selecionou livros para compor o catálogo de compras do governo. A análise desses textos mostra uma realidade assustadora:
    - a uniformidade dos textos não condiz com as diferentes realidades dos alunos brasileiros;
    - os preconceitos e erros conceituais levam o aluno , muitas vezes a situações de risco até mesmo da sua integridade física.”
    “Democratização não é só colocar o aluno na escola mas fornecer acesso ao conhecimento amplo e de qualidade para que possamos fazer ciência e talvez criar pessoas capazes de pensar e de modificar a nossa realidade.”
    Do José Ângelo:
    “A aula do dia 15/09 foi um diálogo com o professor Roque Moraes sobre o seu trabalho com as licenciaturas. Conversamos sobre como está sendo a nossa participação no curso, sobre as nossas expectativas, sobre os métodos de trabalho e sobre a relação professor aluno universidade. Ele nos questionou sobre como deveria ser uma aula participativa. Argumentamos que as ações relacionadas às mudanças parecem estar centradas apenas no esforço de alguns professores.”
    “A aula do dia 11 iniciou com a apresentação dos relatórios da aula anterior.
    Observei que em todos os relatos, os colegas descreveram a importância de uma reformulação nos padrões do ensino atual. Analisamos o quanto devemos mudar a nossa maneira de pensar e de ver as coisas. Sejamos críticos conosco e com a universidade que formará os instrutores do amanhã. A universidade deve ser um pólo de discussão, de pesquisa , de reflexão e parar de ser apenas mais um colégio em nossas vidas.”
    Do Marcelo Vetori:
    “Na aula do dia 12 tivemos a apresentação da atividade planejada pela Célia. Ela nos trouxe uma engenhoca que construiu especialmente para atividade. Entre outras coisas havia uma seringa acoplada a um tubo com um orifício no qual depositamos sal Eno ... Depois fizemos a leitura de um artigo da revista Nova Escola onde o professor participava da matéria como entrevistado. Além de ter sido apresentado como de outra Universidade ainda foi colocado pela revista na posição de um chorão.”
    “No dia 19 foi minha vez de apresentar uma atividade. Confesso que quebrei a cabeça pensando em uma experiência simples, de fácil manipulação e material acessível. Queria que envolvesse a todos e , principalmente, que todos fizessem o mesmo trabalho. Inclusive o professor. Consegui.”
    Do Daniel:
    Excerto de seu primeiro relatório:
    “No nosso encontro o professor fez comentários sobre como deveria ser encarada a profissão de professor e como deveria se comportar enquanto pesquisador que é.
    Também tive a oportunidade de, através de um de seus artigos, conhecer um pouco de suas idéias sobre a ensino da Física e das Ciências em geral.
    Além disso, e o mais importante de tudo, foi o fato dele Ter nos oferecido a oportunidade de trabalharmos uma metodologia totalmente nova, que apesar de ainda não Ter sido bem esclarecida , me interessa!”
    De seu último relatório:
    “Somei muitos conhecimentos este semestre. A começar por conceitos e definições que foram totalmente remodelados ou, simplesmente jogados no lixo. Em relação à nossa prática, sinto que consegui entender o espírito da coisa.
    Mas o mais importante para mim foi o esclarecimento de idéias em relação ao magistério que de início me pareciam ingênuas e isoladas.
    Pena que eu esteja notando a existência de um vazio dentro de meus colegas professores.
    Existe muita coisa a ser mudada, da metodologia empregada ao currículo trabalhado , passando inclusive pela relação professor/aluno.
    Poucos professores estão conscientes da necessidade de se realizar essa mudança. Não os culpo por isso. É sabido que nossos cursos de formação desenvolvem pouco ou nada o espírito crítico dos alunos. Todos nós somos produtos dessa mesma educação deficiente.
    Sugiro que essa luta continue e que a revisão de definições e conceitos da Física seja uma constante desde o início do curso ou nosso alunos continuarão a reproduzir retumbantes besteiras.”
    Parece que alcançamos algum sucesso. Estamos formando agentes de mudanças. E este é um dos principais objetivos do nosso curso. Resta saber se eles a partir de agora sucumbirão à inércia do sistema ou se empenharão em manter suas maravilhosas intenções .
    Uma das maiores virtudes do professor é sua capacidade de indignação. Mantenham-na sempre em níveis elevados.

E sejam felizes
Muito obrigado


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