O Prazer da Descoberta
(Por Plínio Fasolo)


Sabe-se que a variação da energia interna do gás ideal, dU, é nCvdt e não nCpdt. Onde n é a quantidade de matéria, Cv é a capacidade calorifica molar a volume constante, Cp é a capacidade calorífica molar a pressão constante e, dt, pequena variação de temperatura.

Há alguma beleza nisto?

Para alguns certamente. Apreciar isso é como contemplar um quadro pintado da natureza. Notem, não é contemplar a natureza. Apenas é contemplar uma tela onde um pintor tentou retratar a natureza.

Ensinar essas coisas significa uma ação que tem por objetivo a contemplação.

Pode-se dizer que os professores desta época, em sua grande maioria dedicam seu tempo em mostrar pinturas realizadas por artistas geralmente desaparecidos e a reafirmar para seus alunos: "olhem que beleza, que combinação de cores, que equilíbrio de formas, que vigor no traço, que estranho significado, que nível de abstração.

Portanto, eles não estão ensinando a pintar e nem tampouco a sentir a natureza.

Para a quase totalidade dos estudantes seria indiferente se eles recebessem a informação contrária. Isto significa que eles não têm participação alguma no conceito que estão recebendo. Suas consciências são alheias e seu senso crítico inútil.

Será esta uma característica desejável em processos educativos voltados à idéias comprometidas com sociedades livres?

Existem muitas formas de se constatar a desvinculação do exercício racional com a consciência do educando. A desconsideração de seus talentos com aquilo que lhes estão ensinando.

Felizmente existem também pequenas ações, pequenos procedimentos que exercidos pelo professor estabelecem vínculos entre o aprendiz e os conteúdos do ensino.

Em certa ocasião, durante um encontro em que participavam professores interessados nas atividades de Feiras de Ciências, fui solicitado a enumerar alguns temas ou assuntos que servissem para investigações simples e que, ao mesmo tempo, fossem assuntos pertencentes aos conteúdos programáticos.

Resistindo ao convite resolvi devolver a questão. Apontei para uma moça loira da terceira fila:

- A senhora, professora, faça a gentileza de contar-nos resumidamente como foi a sua última aula de ciências.

Um tanto contraída inicialmente, mas logo mais fluente, falou a professora:

- Estou dando "água" para os meus alunos de 5ª série, em que o programa estabelece ar, água e solo como conteúdo programático.

Insisti:

- E como a senhora está procedendo, ou melhor, especificamente, como procedeu na sua última aula?

Ela voltou a falar:

- Inicialmente escrevi a fórmula da água no quadro negro, H2O, explicando que cada molécula de água é composta de dois átomos de hidrogênio para um átomo de oxigênio.

Depois falei sobre o ciclo da água na natureza: a água evapora nos mares, forma as nuvens e cai como chuva alimentando os rios. Falei também nos estados físicos da água e .. acho que foi só isso.

Continuei então insistindo:

- A senhora não forneceu nenhum copo de água para seus alunos?

- Não, respondeu ela, para que? Água eles conhecem, tomam todo o dia.

- Quer dizer que somente usou suas palavras, giz e quadro negro? Voltei à carga mostrando certa indignação.

- Sim, confesso que sim, disse ela. Mas o que eu poderia fazer?

Pensei alguns segundos e respondi:

- Bem, a senhora poderia explorar a capacidade mais evidente que a água possui: a capacidade de molhar.

- A senhora já mediu o tempo que diferentes papéis gastam para absorver, por exemplo, uma gota de água?

Talvez uma atividade orientada nesse sentido, ocupando todos os alunos da classe reunidos em pequenos grupos, fazendo com que eles registrassem os resultados numa tabela adequada que se fizesse no quadro negro fosse algo que viesse a despertar o interesse da turma sobre a água e suas propriedades.

Não valeria apenas por isso. Uma atividade assim educa de muitas maneiras e o conhecimento que origina é consistente e duradouro.

Atrevi-me então a prosseguir com a forma que eu havia encontrado para resistir ao pedido de apresentar receitas prontas.

Dirigi-me então para outra professora e formulei nova pergunta:

- E a senhora professora ? Conte-nos a sua última aula.

Após levantar as sobrancelhas como se estivesse surpresa e ao mesmo tempo organizando suas memórias, falou de forma eloqüente:

- Na última aula eu ensinei aos meus alunos poriferos e celenterados. Disse ela com certo ar desafiador.

Confesso que levei um choque; muito mais porque eu desconhecia totalmente o significado daquelas palavras do que pela pretensão otimista que a frase revelava.

Imediatamente, baseada no que ouvira do diálogo anterior, lançou-se em defensiva:

- Claro que nesse caso não poderia mostrar espécies cujo habitat não tem nada a ver com o local onde estamos. Desenhei-os no quadro o melhor que pude e nomeei todas as suas partes e principais características. Acho que eles aprenderam. Afirmou com a fisionomia convicta, curvando para baixo o canto dos lábios.

Deixei um certo tempo o olhar parado sobre ela sem dizer nada. Preocupou-me o conceito de aprendizagem que a professora revelava.

- A senhora acredita que os seus alunos revelariam um conhecimento aceitável desses bichos, respondendo a uma avaliação que fosse feita, digamos ... seis meses depois?

- A senhora acredita que esses conhecimentos possam ter alguma utilidade para um número significativo de estudantes, pelo menos durante o tempo em que eles conseguem retê-los em suas memórias?

- Á senhora acredita que um produto com características de conhecimento possa ter, claro que não circunstancialmente, alta cotação, apresentando tão pequena durabilidade?

Como as questões foram colocadas de forma muito rápida, ao invés de tentar respondé-las, ela falou delicadamente:

- Então, professor, o que o senhor sugere?

Se eu dispusesse de mais tempo... se eu soubesse o que são poríferos e celenterados... (agora, após ter consultado o dicionário, sei alguma coisa sobre esponjas e medusas), talvez minha sugestão fosse mais rica e mais original. Porém, a idéia que surgiu em minha mente naquele momento me deixou satisfeito.

- A senhora poderia ter solicitado que seus alunos, após prepararem um questionário com apenas três itens, entrevistassem seus pais, os vizinhos da esquerda de suas casas e os vizinhos da direita. Os itens poderiam ser:

a) o que são poriferos?

b) o que são celenterados?

e) profissão de quem respondeu este questionário.

A reação foi imediata, não só da professora que fez cara de quem não estava entendendo, mas entre os demais participantes do encontro, que murmuraram algumas exclamações de desconformidade e outras apenas de desconfiança.

Em seguida a professora voltou a falar:

- Sinto mas não consigo ver a utilidade de um trabalho como esse que o senhor propõe, uma vez que, obviamente, já conhecemos qual seria o resultado. Tenho certeza de que ninguém responderia de forma correta sem pelo menos consultar um dicionário. As respostas seriam um continuo não sei. A zona de periferia urbana onde se localiza minha escola é multo pobre, os alunos são filhos de operários e, é claro que tais pessoas nunca tiveram esse tipo de informação. Talvez, se eventualmente alguém tivesse como vizinho um dentista, ou um professor, quem sabe se lembrasse ainda dessas coisas de Biologia. Talvez pudesse haver alguma resposta positiva, mas acho muito difícil.

- Muito interessante, falei eu. Á senhora acaba de nos mostrar um excelente exemplo da utilidade da atividade por mim proposta. Veja a senhora que nesta última alocução manifestou em sua segunda frase a certeza num resultado que, por suas últimas palavras, dá para se perceber que a senhora passa a admitir a possibilidade de se obter respostas positivas. Portanto, honestamente, absolutamente a senhora não sabe o resultado da pesquisa antes de fazê-la.

A característica principal das atividades que julgamos deva ser preservada, incentivada, é esta: a de gerar conhecimento, tanto para os alunos como para o professor.

Agora enquanto escrevo, passados vários meses daquele encontro, volto a pensar no exemplo da aplicação do instrumento sobre esponjas e medusas. Procuro imaginar situações que poderiam ocorrer durante a aplicação do questionário pelos meninos. Eles entrevistando os pais, visitando os vizinhos, desta vez não para brincar.

Possivelmente, muitos não iriam se contentar em apenas fazer as perguntas, sem antes ficarem sabendo alguma coisa sobre poriferos e celenterados. Por iniciativa própria, iriam pesquisar e se informar mais ou menos profundamente sobre o assunto. O livro de Ciências que utilizam na escola, a biblioteca da escola, a biblioteca do município, outros professores, o médico do osto de saúde, seriam possíveis fontes de consulta.

O contato do professor com sua turma de alunos durante o curto período da aula deve ser muito bem aproveitado.

Encaminhar um trabalho para que os alunos o realizem fora de aula, do tipo como o que foi sugerido, não requer mais do que três minutos, incluindo as instruções sobre a aplicação do questionário e as eventuais investidas de alguns mais curiosos que, possivelmente, iriam solicitar ao professor uma resposta imediata para as questões. Sou da opinião que, neste caso específico, seria mais útil e de maior benefício educativo se o professor resistisse ao convite para que ele fosse a fonte da informação.

Se temos oportunidade de vivenciar a distinção entre o educativo e o informativo, não devemos desperdiçá-la.

O professor de Ciências não prestando outras informações, mas apenas aquelas necessárias para desencadear um processo de busca de informações pelos alunos, transformará o pequeno intervalo de tempo do período formal da aula em um estopim que produz a explosão a distância, o trabalho extra classe, comprometido e interessado, aquele que dificilmente é esquecido. Aquele que forma e, evidentemente, aquele que discrimina naturalmente os competentes, os dedicados e trabalhadores, dos inaptos e impostores.

Aquele que realiza um trabalho a fim de obter o conhecimento que deseja, vê-se recompensado, não somente pelas vantagens que advêm da maior qualificação e durabilidade do conhecimento conseguido, mas também pelos incalculáveis benefícios sicológicos promovidos pela sensação do prazer da descoberta.


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