Um novo predador.
(Por Plínio Fasolo)


    Eu sou do tempo em que enfrentar dificuldades era um divertimento. Me deliciava vencer desafios sem auxílio dos outros. Talvez fosse egoísmo. Não gostava de dividir as glórias das minhas pequenas vitórias. Muitas vezes ficava horas, dias até, tentando resolver um problema de Matemática ou de Física. Odiava o professor que, por impaciência, não esperava pelo meu raciocínio lento e apresentava a sua solução diante de uma classe sonolenta, onde uma minoria de ingênuos admirava a sua "competência" .
     Nunca entendi muito bem o clamor dos que anseiam por soluções prontas. Guga , Scheidt e Amyr jamais seriam forjados por professores dessa linha.   
     As universidades e as escolas aumentaram seus recursos de acesso às informações. As biblioteca estão mais abastecidas, os laboratórios estão mais equipados, as salas de aula já possuem computadores ligados a Internet que é a fonte mais completa e rápida para qualquer tipo de informação. Isso poderia significar a total obsolescência do professor informador. No entanto, por um desígnio aparentemente inexplicável para a grande maioria dos alunos, os professores continuam sendo a principal fonte de informação.
    Que estranha ansiedade contamina os professores mais jovens em satisfazer de imediato a curiosidade dos alunos. Eles prontamente querem responder as pergunta que lhes são formuladas e, diante de uma classe apática, passam a responder até mesmo perguntas que ninguém lhes fez. Professores muito preocupados com a demonstração do seu conhecimento, ou em esconder suas ignorâncias, pouco contribuem para a eficiência escolar.
     Faz pouco tempo, soube que há no mercado um livro apresentando as soluções de todos os problemas contidos no texto de Física mais adotado por nossas universidades. Soube também que esse livro está fazendo mais sucesso de vendas do que o texto consagrado contendo os problemas. Comparo o autor dessa "façanha" ao traficante de drogas. Talvez ele não perceba de imediato o mal que está causando, corrompendo o processo de aprendizagem, mas sem dúvida ele é um predador.
     Não podemos esquecer que o conhecimento pode ser muito mais uma conquista do aprendiz do que uma vitória de quem ensina.
     São palavras do professor Vicente Hillebrand durante uma reunião onde a eficiência acadêmica estava sendo discutida: "... o problema está em que nós estamos trabalhando demais e os alunos, de menos... " É a pura verdade. Nunca os professores trabalharam tanto pelos alunos e nunca a educação foi tão ineficiente. Logicamente o significado do que foi dito não está propriamente na quantidade do trabalho educacional, mas na qualidade, no método, ou ainda, na concepção do que seja ensinar.(Excerto de "PROBLEMÀTICAS DE CONVIVENCIA ESCOLAR. ALGUNS CRITERIOS DE INTERVENÇÃO", FERNANDO ONETTO, Pág. 4. Revista Novedades Educativas, Edição: Nº136, abril 2002 - B. Aires - AR
     ">Não há nada tão contaminante dos climas escolares como a rotina de dificuldades, tropeços em uma mesma pedra. O mais grave nos conflitos não é a sua intensidade mas a sua cronicidade. Quando as dificuldades se tornam crônicas aparecem os sentimentos de impotência e desesperação.   
     Os processos de melhoria deveriam ser acompanhados por instalações de verdadeiras oficinas de aprendizado do uso de ferramentas organizadoras de procedimentos e facilitadoras da comunicação. Não haverá início sem uma dessas ferramentas para intermediar conflitos, aplicar sanções, mantendo o registro de todos os produtos. Mas o mesmo processo de melhoria coloca em prova os procedimentos, selecionando-os, desfazendo alguns e gerando novos.    Cria-se um grande espaço de criatividade. O "paradoxo da ajuda" , que afronta todas as estratégias de assistência , só se resolve quando o que assiste (instrutor) opera de maneira que anula a si mesmo. A verdadeira ajuda se "autonega" , ou seja, trabalha para que o outro deixe de necessita-la. A chave está nas intervenções que reforçam a autonomia, o poder das pessoas e não as enfraqueçam ou aumentem a sua dependência."   
     A grande maioria dos alunos, ao ingressar na universidade, acredita já ter alcançado a sua meta: "vou sair daqui formado doutor !" Pensam que com a aprovação no vestibular conquistaram o direito de serem formados pela universidade. Na verdade não é a universidade que os forma mas os alunos que se formam nela. Isso explica a existência de personalidades que galgaram enorme sucesso profissional embora emergindo de universidades consideradas modestas e , em contra partida, muitos doutores, quase idiotas, portando diplomas de universidades importantes.   
    Ao ingressar numa universidade o aluno adquiriu o direito de explorar vários recursos, distribuídos num espaço definido, estruturados de acordo com normas preestabelecidas e pouco elásticas; ou seja, adquiriu o direito de tornar-se um estudante. É pura ingenuidade pensar que a sua matrícula inclui outras garantias. Quem souber se utilizar dos recursos disponíveis, explora-los adequadamente visando a sua formação, poderá se tornar um profissional competente.
    Não adianta nada a existência de laboratórios, bibliotecas, professores, funcionários, ambientes agradáveis e toda uma estrutura acadêmica organizada se o aluno (sim, porque existem alunos e estudantes ...) não for um "estudante". Qual a diferença? É simples ... O aluno é aquele que cumpre o regimento, assiste às aulas e, caso venha a faltar, prontamente apresenta um atestado médico. O aluno é aquele que faz as "provas", que vive contando os pontos que faltam para alcançar a nota mínima de aprovação. Não se manifesta em aula. Só procura o professor para questionar sua avaliação. De estudante ele tem apenas a "carteirinha". O estudante freqüenta a biblioteca e a Internet, tanto ou mais do que a sala de aula. Quando busca o professor é para discutir a solução de um problema ou para sugerir uma possível atividade complementar às programadas. Comparece aos laboratórios, mesmo fora dos horários obrigatórios. Participa das aulas buscando sempre um diálogo com o professor. Diz o que pensa e ouve os que se manifestam . Participa com gosto de discussões e desafios.   
     Um dos grandes desafios a ser enfrentado pela universidade é o de transformar seus alunos em estudantes. Para tanto, não existe uma única providência, mas todas elas certamente implicarão em ações que irão aumentar as exigências sobre os alunos, diminuindo as concessões. Os futuros profissionais irão agradecer.

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