As Muitas Marés   (Por Plínio Fasolo)

     Todos nós já utilizamos expressões que possuem dois ou mais sentidos, e não somente de forma adequada, transparente e sem "segundas intenções". Usamo-las muitas vezes para fazer ironias. As ironias podem ser manifestações de bom humor para com os amigos,  mas também podem representar críticas maldosas sobre os "nem tão amigos assim".
    O termo "maré" é utilizado com muitos sentidos. As vezes como "onda" ou "fase", coisa ou moda passageira. As vezes como epidemia: "há uma maré de gripe por ai ."  Até mesmo com o sentido simbólico  de um ditado : "hoje a maré não tá prá peixe..." querendo dizer que o dia não está bom.

   Aqui iremos tratar da maré que designa a deformação dos oceanos, sem no entanto ater-nos  aos tipos distintos que comumente são referidos pelos navegantes e pescadores. Iremos fazer uma análise do que realmente provoca as marés e de como o conceito de maré poderá ser estendido a muitas outras situações que envolvem deformações ou simplesmente tensões internas nos corpos que estão sendo submetidos a forças externas.

    Na mecânica clássica, as forças são interações à distância, de origem desconhecida, entre corpos materiais. Sejam elas interações atrativas ou repulsivas, devemos ter em conta que contato ou afastamento "zero" entre corpos não existe. Portanto, mesmo na ocasião de um violento choque de um martelo contra a cabeça de um prego, a interação entre os átomos do prego e do martelo se faz através dos campos eletromagnéticos desses átomos, logo, sem o contato direto.
    Dificilmente os puxões ou empurrões que são produzidos sobre os objetos podem ser distribuídos uniformemente e simultaneamente por todos os seus átomos. Geralmente eles atuam sobre átomos da superfície externa e de uma pequena região de grande proximidade ao agente com o qual o objeto está interagindo. Então, a transmissão  da aceleração aos demais átomos do objeto ficará por conta das forças internas que unem os átomos entre si, sujeitando-os a tensões não uniformes (por serem concorrentes, ou não paralelas, e por perderem intensidade durante a propagação). Essas tensões geram as deformações ou marés. Na verdade são essas marés que nos causam a sensação de sermos empurrados ou puxados sempre que um agente externo nos agride.
    Se fosse possível aplicar forças absolutamente iguais (mesma intensidade e orientação) simultaneamente sobre todos os átomos do nosso corpo, não perceberíamos a interação e nem mesmo a inércia . Iríamos experimentar uma aceleração uniforme, que poderia ser imensa, sem experimentar deformações ou alterações nas tensões internas e por isso não a perceberíamos.
    Na realidade podemos perceber algo muito próximo dessa situação incomum, de um puxão sem a percepção da inércia, durante uma queda livre nas proximidades da Terra. É que no espaço ocupado por um corpo pequeno como o nosso, o campo gravitacional da Terra em que estamos mergulhados é quase uniforme. Isso faz com que todos os átomos fiquem sujeitos à mesma aceleração, tornando a maré praticamente inexistente. Por isso, um astronauta em queda livre enquanto em órbita da Terra, não sente o seu peso, ou seja, não sente o puxão da Terra. Mesmo nós, aqui na superfície da Terra, sentados em uma cadeira, apenas sentimos a força que a cadeira exerce sobre nós, contrária ao peso, por causa de uma forte maré (deformação) em nossa região glútea.
    Podemos imaginar se teríamos a sensação do peso se, de repente, nos faltasse não apenas a cadeira mas o chão  aos nossos pés?  Certamente, não. Não teríamos a sensação do nosso peso.
    Disso conclui-se que, se a Terra estivesse mergulhada em campo gravitacional uniforme, não experimentaria marés.
    Muita gente acha estranho o fato da Lua exercer muito mais efeito de maré sobre os oceanos da Terra do que o Sol. O Sol tem uma massa incomparavelmente maior do que a da Lua e por isso exerce sobre a Terra uma força de atração cerca de 180 vezes mais intensa do que a exercida pela Lua. No entanto,  na pequena parcela ocupada pela Terra no imenso campo gravitacional do Sol, o campo é muito mais uniforme do que na parcela do campo da Lua que está sendo ocupada pela Terra. O campo gravitacional da Lua, devido a sua pequena dimensão e proximidade, é acentuadamente radial comparativamente ao campo do "grande Sol"

Terra e Lua:     Sol e Terra:


Observador

na Lua:      na Terra:

As animações acima foram realizadas por Silvio Glock e gentilmente cedidas pelo Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS (Porto Alegre).

    Elas mostram, de uma maneira exagerada e fora de escala, como ocorrem as altas marés em faces opostas do globo, simultaneamente com as baixas marés em "quadratura" também em faces opostas. Também é possível ter-se uma idéia do motivo da existência de duas marés altas e duas marés baixas por dia.
    Mas por que existe a elevação do mar  em ambas as faces da Terra, tanto na mais próxima quanto na mais afastada da Lua?
    -Imaginemos um ponto "p" na face próxima e um  ponto "a" na face afastada. A força da Lua sobre "p" é maior do que sobre "a". Embora tendo o mesmo sentido, a diferença de intensidade existente entre elas    corresponde a uma força de expansão.

    Imaginemos uma mola sendo solicitada em suas extremidades por um par de forças semelhante. Como a força que aponta para fora do centro é maior do que aquela que aponta para o centro da mola, fica evidente que a mola vai alongar, ou seja, ambas as extremidades serão afastadas do centro. Como está indicado no desenho, o ponto "p" experimentará uma aceleração maior, o centro terá uma aceleração média e o ponto "a" uma aceleração menor.
          Se isso não bastasse, ainda temos o "aperto" nas faces transversas provocado pelas componentes das forças radiais aplicadas nos pontos "m" e "n" .
 

Para os que não são alérgicos à Matemática:  Cálculo das marés