Cheiro de Queimado                                         

     Plínio Fasolo*

 

     Muito se tem falado sobre o aquecimento global, mas poucos entendem as possíveis causas desse problema que parece se constituir no verdadeiro apocalipse.

     As causas apontadas geralmente são muito específicas, ligadas a procedimentos humanos modernos, dando a impressão de que basta alterar alguns hábitos da nossa civilização para que o fantasma do fim da humanidade seja jogado para as gerações de um futuro distante.

     Para tentar esclarecer a verdadeira origem do problema, criamos um modelo representando o nosso ambiente na Terra. Vamos também imaginar uma civilização habitando tal ambiente modelo.

     O ambiente é um amplo salão. Em seu centro jaz uma geladeira desligada. Ela representa uma grande conquista tecnológica dessa civilização. Foi concebida a partir de conhecimentos científicos construídos por séculos. Afinal, produz frio a partir de energia eletromagnética disponível na tomada existente no chão do salão. O frio que ela é capaz de fabricar poderá conservar alimentos, produzir sorvetes e garantir a cerveja gelada a alguns escolhidos. O ato de ligá-la é discutível. A população discute vantagens e desvantagens desse ato. Estão indecisos. Os desenvolvimentistas argumentam que o aumento da população exige que se produzam alimentos em quantidade suficiente para estocar por vários meses e a geladeira poderia ter papel importante na solução desse problema. Uma minoria, evocando o princípio do aumento da entropia, aconselha não ligar a geladeira. Alega que a temperatura do salão, agora em 24°C (o universo modelo), aumentou quase 1,0 grau no último milênio e,  se a geladeira funcionar,  haverá uma aceleração nesse aquecimento. Atingiria 30°C em poucos milênios. Isso acabaria com toda a civilização.

     De acordo com o “senso comum”, algumas pessoas poderiam pensar: “... como uma máquina de fazer frio pode aquecer o ambiente! ... Basta fazê-la funcionar com a porta aberta.  Certamente ela irá refrigerar bem a zona do congelador e um pouco menos o ambiente. Finalmente  todos irão ser beneficiados”.  Com esse raciocínio surge um partido que se intitula social e democrático, favorável  a geladeira ligada, mas com a porta aberta.

     Outro grupo não admite que tanta gente fique dividindo o frescor de um ambiente tão agradável, além disso, a cerveja no congelador não ficaria tão geladinha... A geladeira deveria funcionar de porta fechada e só teriam acesso ao seu congelador políticos, empresários produtores de tecnologias que facilitam a vida dos mais ricos e, a esses últimos, os ricos, seria permitido o uso de todo o volume interno da geladeira, pelo menos durante o período de existência de duas gerações.  Quem estivesse “de fora” receberia uma bolsa para fazer cursos de sobrevivência e de educação ambiental.  Fundam o PM, partido da meritocracia.

     A minoria que evocava o princípio do aumento da entropia e por isso era contra o ligar da geladeira, perdeu a eleição.  A geladeira foi ligada. Hoje sobrevive num partido que mais parece Dom Quixote lutando contra moinhos de vento, tentando desligar a geladeira como se isso fosse possível.  É o PE, partido ecológico. 

     Talvez seja necessário esclarecer melhor esse princípio do aumento da entropia. É algo que a Física considera inviolável sob todos os aspectos, porque jamais se verificou uma só situação em que ele se mostrou inválido. Parece constituir- se uma propriedade fundamental e indelével do nosso universo.

     Afinal, como ele é descrito?

     “A energia do universo é constante, porém, a energia térmica do universo está sempre aumentando e aumenta mais rapidamente sempre que houver qualquer transformação em outras energias (não térmicas)”

     Quando um objeto é solto de certa altura e cai chocando-se com o solo, a energia mecânica (presente no movimento do objeto) transforma-se totalmente em térmica e, como tal, irrecuperável. Será um acréscimo à energia térmica do universo.

     Voltando ao modelo do universo “salão”, a tomada fornece energia eletromagnética de fora para dentro do salão, tal como o Sol fornece energia eletromagnética à Terra. Com essa energia, a geladeira retira energia térmica do interior e joga para a parte externa. Portanto, o ambiente externo da geladeira, o salão, terá a sua energia térmica acrescida daquela que foi retirada do interior da geladeira e mais da eletromagnética que veio de fora do salão, fazendo com que a temperatura do ambiente aumente. A energia térmica do salão seria constante se o ciclo “tirar energia térmica do congelador e jogar para fora” pudesse ser realizado sem consumo de qualquer outro tipo de energia, mas isso é impossível. Logo só há uma forma de não apressar o fim da civilização que habita o salão: não ligar a geladeira.

    Em nosso planeta a geladeira já foi ligada. O que pode ser discutido é a ocasião em que tal ato ocorreu. Alguns apontam a revolução industrial, surgida na Grã-Bretanha no século XVIII, como marco inicial desse período dramático da história humana.  Outros, como Arthur Koestler (1905-1983), consideram a destruição de Hiroxima em 1945 o mais significativo acontecimento desencadeador do fim do futuro. Koestler considerou tão importante esse marco que propôs transformar 1945 em ano zero. Então 1946 seria o ano 1 DH (depois de Hiroxima).

    De todas as máquinas já produzidas nenhuma possui um poder letal maior do que as nucleares.

    As transformações energéticas no âmbito gravitacional, eletromagnético e mecânico produzem aquecimento do planeta, porém, incomparavelmente menor do que as de origem nuclear.

    “Levar a economia para as novas energias vai garantir os empregos no futuro. Vamos utilizar fontes mais limpas de energia para não colocar em risco o meio ambiente” falou Barack Obama, presidente dos Estados Unidos.               

    As tragédias que sucederam as bombas de Hiroxima não surpreenderam aos que acreditam no principio do aumento da entropia. Portanto, os “acidentes” em Chernobyl, Goiânia e mais recentemente no Japão, de certa forma já estavam previstos.

    Em 1977, no seu “Manifesto Ecológico Brasileiro” José Lutzenberger escreveu:

                A tecnologia nuclear pressupõe um mundo perfeitamente utópico – um mundo sem guerras, sem erros humanos, sem terremotos, sem tsunamis. Um mundo que não existe.”

                “A exploração da energia nuclear constitui nota promissória contra nossos filhos e descendentes remotos.”

                “Este tipo de tecnologia é profundamente imoral!”

    Lutzemberger  não foi  profeta . Seu conhecimento não lhe foi revelado por alguma entidade. Seu conhecimento foi conquistado por suas experiências e seus estudos científicos.

    Lamentavelmente o futuro da humanidade não está nas mãos de um Lutzenberger  ou de um Obama. O futuro da humanidade, cada vez mais parece estar na própria natureza humana, no seu gen. Tal qual a entropia no universo.

    *Ex professor da Faculdade de Fisica da PUCRS- pliniofasolo@gmail.com

    Dia 31 de maio de 2011 o jornal "Correio do Povo" publicou a seguinte notícia: 

noticia.jpg (37373 bytes)

 

Se outros países seguissem o exemplo, certamente teríamos mais esperanças para a sobrevivência das futuras gerações.

 

                                                       Enquanto isso no Brasil....

noticia_2.jpg (59808 bytes) 

 (Nota publicada no CP dia 02 de junho de 2011)

    Dia 24 de agosto de 2011 a revista VEJA publicou a seguinte entrevista: 

Fukushima.jpg (193000 bytes)

    A confissão da imprevidência ressaltada sobre a fotografia desse cidadão importante não o exime de responsabilidade sobre o ocorrido e constitui prova clara de que preparo técnico, poder e trabalho nada tem a ver com sabedoria. 

 (O pequeno recorte à esquerda é da revista Veja de 11/07/2012. Ele reforça a irresponsabilidade do Sr.Norio Sasaki)

Fukushima.jpg (193000 bytes)

 (Não devemos confundir inteligência com sabedoria. Para se construir uma usina nuclear ou uma bomba atômica necessitamos de muita inteligência, mas para não utiliza-las necessitamos de muita sabedoria. E sabedoria é o que está nos faltando.)

    É das páginas amarelas da revista VEJA de 15 de agosto de 2012 o seguinte excerto: 

anne_lauvergeon.jpg

    Vale repetir a frase de Lutzenberger: 

                A tecnologia nuclear pressupõe um mundo perfeitamente utópico – um mundo sem guerras, sem erros humanos, sem terremotos, sem tsunamis. Um mundo que não existe." 

    Aqui vai uma pérola do pensamento ingênuo dessa engenheira atômica: 

baaahh.jpg (193000 bytes)

    Passou um ano desde a minha última postagem neste blog. 

                Finalmente nos chega mais uma boa notícia: 

    Publicada na página 10 do jornal Correio do Povo de 16/09/2013: 

japa_nucle.jpg (93000 bytes)

    *Ex professor da Faculdade de Fisica da PUCRS- pliniofasolo@gmail.com